quarta-feira, 8 de julho de 2009

a boneca

Eu tinha uma boneca de 80 anos. Ela foi brinquedo da minha avó, da minha mãe e da minha irmã. A boneca só foi minha quando morreu. Minha irmã a tinha enterrado no meio da lama do cantinho do jardim da minha mãe com as plantas da minha avó. Eu a desenterrei. Limpei. Ela estava só com um olho. Coloquei no lugar do outro um papel pintado. Barbantinho no lugar do cabelo. Coloquei um par de óculos para boneca me ver bem. Ela me vê só com um olho. No outro ela me pinta na cabeça dela.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

escrito na parede do meu banheiro (atual caderno de pequenas anotações):

"incertos são os horizontes que têm pedras
prefiro os de águas
são mais infinitos"

quarta-feira, 20 de maio de 2009

acordo com gostos cinzas no corpo

uma febre descortina meus olhos

penso em líquidos viscosos

repenso

repenso repetidamente

repenso

re-sinto
sinto
sinto te

ao meu lado na cama entre os lençóis
me olhando com olhos fechados

e sorrindo de boca fechada
quando te toco
ainda dormindo

despertamos


***

não tenho mais nenhuma certeza

desaprendi com as viagens
que os horizontes
são linhas

desaprendi
os pontos de fuga

não tenho mais certezas
será que também
nem tenho mais
essa
a de não ter mais certezas

???

sexta-feira, 15 de maio de 2009

hoje não me agüentava mais em mim
ejaculei-me

ontem não me agüentava mais em mim
desejei ser sol
para arder-me
e consumir-me
durante a noite
durante sonhos

terça-feira, 14 de abril de 2009

estou
atravessado por uma palavra dilacerante
minhas vísceras
ardem
o sangue
infla
o fundo dos meus olhos
doem
meus ouvidos
mergulham
no teu silêncio
na tua inexistência
meu corpo te quer

domingo, 15 de março de 2009

correr correr correr
no meio da noite
de si
para ti
quem?
para tis
que não sei onde está
não vai dar o ar da sua graça?
uma água quente entornou no meu peito
queimou meu pulmão
faleceu meu coração
desritmou minha alma
imobilizou meu corpo
colocando-o num caixão de cristal
trancado a sete chaves
a sete palmos
a espera da eterna paciência divina