canoa de papel
re-visões do cotidiano - anotações esparsas
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
sábado, 16 de janeiro de 2010
parição
vez ou outra me assomam sentimentos de parir.
por exemplo:
parir flores num dia triste,
parir uma lua numa manhã insone,
parir um peido quando não tenho rumo,
parir um café num bico de prosa,
parir uma montanha em meio a meditação,
parir sementes quando em desejo de sonhar,
parir filhos quando me encho de feminilidade,
parir gêmeos quando tenho dúvidas,
parir vida quando penso na minha tataravó,
parir pássaros quando lembro de casa,
parir sol quando me molho,
parir um medo corajoso do tamanho de um bicho de sete cabeças,
parir um sorriso sincero para assumir a falta de coragem,
parir um filho quando penso nos 40 anos,
parir um neto quando sonho nos 70 anos,
parir um bisneto quando penso nos 100,
parir num novo mundo quando penso no agora.
por exemplo:
parir flores num dia triste,
parir uma lua numa manhã insone,
parir um peido quando não tenho rumo,
parir um café num bico de prosa,
parir uma montanha em meio a meditação,
parir sementes quando em desejo de sonhar,
parir filhos quando me encho de feminilidade,
parir gêmeos quando tenho dúvidas,
parir vida quando penso na minha tataravó,
parir pássaros quando lembro de casa,
parir sol quando me molho,
parir um medo corajoso do tamanho de um bicho de sete cabeças,
parir um sorriso sincero para assumir a falta de coragem,
parir um filho quando penso nos 40 anos,
parir um neto quando sonho nos 70 anos,
parir um bisneto quando penso nos 100,
parir num novo mundo quando penso no agora.
sábado, 26 de setembro de 2009
resposta ao poema de 25 de junho
nos últimos meses aprendi a gostar da incertidão dos horizontes de pedras
pelo menos me trazem o conforto de um abraço
ante a tanta imprecisão da natureza...
pelo menos me trazem o conforto de um abraço
ante a tanta imprecisão da natureza...
domingo, 6 de setembro de 2009
setembro - clara - joão
setembro
me despedaço em folha
para ser levado em vento nas rotas migratórias
é setembro
e aves do norte se reencontram no sul
vou em bicos estrangeiros
no ouvir da língua de pássaros
te encontrar
me desmancho em chuva
para te molhar depois da seca
é setembro
e logo logo a estiagem vai passar
serei em teu caminho grama verde repentina
e também chão firme
a te receber nas andanças matinais
me encontro em teus horizontes infinitos
para ser cantado aqui num refrão respondido aí por você
é setembro
e as cigarras ainda não anunciam verão
só os bem-te-vi saúdam nossa alegria
numa espécie de recepcionistas
com amor-perfeito torto pendurado nos bicos
me sirvo em copo
para ser bebido por você
é quase outubro
e já nem conto mais o tempo
só constato uma imensidão
que tem apenas um nome:
saudade
-------------
clara
clara escureceu um dia. seus olhos amanheceram sem brilho. seu andar perdeu força. sua vontade desmaiou, seu desejo desacreditou. seu sonho dormiu. Só se esquecia.
clara não acordou e nem dormiu. simplesmente se levantou.
clara escurecida, agora também descalça, de camisola caminhava na cidade das ruas sem saída.
sem nenhuma claridade, a andarilha deixava restos de cabelos que caíam em chumaços entre os paralelepípedos.
clara, escurecida, descalça e agora também careca, sem querer, num bocejo, mordeu os próprios dentes apodrecidos. não sangraram ( já estavam podres assim há tempos).
Sem seu sorriso, a moça parou quando suas unhas dos pés e das mãos cresceram tanto tanto tanto que a enraizaram.
clara, escurecida, descalça, careca, sem dentes, teve a pele toda toda toda enrugada. rapidamente, contorceu o corpo, abriu os braços, os olhos ocos, a boca num grito mudo, e se transformou em árvore.
numa das ruas sem saída, daquela cidade, existe uma árvore, que até hoje, nas noites de lua nova arde em ser mulher.
----------------------------
João
João era filho de João que também era filho de João. João, o primeiro, era preto preto preto. Morreu ninguém sabe como, porque o segundo João, filho do primeiro, não se lembrou de contar para seu filho João. O terceiro João, filho do segundo, neto do primeiro, também não quis saber, porque sempre se confundia com as vozes que escutava.
O segundo João também escutava vozes, também era preto e gostava de cantar. Mas um rio cheio enxurrou sua vida e levou a vontade de cantar. Morreu mudo, e oco, antes de ver o filho João, o terceiro, ser pai... Morreu sem dizer um dos segredos que as vozes cantavam pra ele, morreu sem cantar para o neto.
O terceiro João não morreu, não é tão preto, e não gosta de cantar. Calou as vozes que escutava, calou o canto que o fazia dançar, calou o rio que levou a voz do pai.
O terceiro João teve um filho homem que não é João e nem é preto; mas escuta as vozes e
o silêncio do pai, guarda o mistério do bisavô, e admira o rio que revela o canto do avô.
O terceiro João teve filhas, que não são Joanas e nem Marias, e uma delas tem um filho João, que um dia vai cantar o mistério do bisavô, abrir os segredos do tataravô, colocar voz no silêncio do avô e a fazer daquele que não-é-João, ser um pouco João também.
me despedaço em folha
para ser levado em vento nas rotas migratórias
é setembro
e aves do norte se reencontram no sul
vou em bicos estrangeiros
no ouvir da língua de pássaros
te encontrar
me desmancho em chuva
para te molhar depois da seca
é setembro
e logo logo a estiagem vai passar
serei em teu caminho grama verde repentina
e também chão firme
a te receber nas andanças matinais
me encontro em teus horizontes infinitos
para ser cantado aqui num refrão respondido aí por você
é setembro
e as cigarras ainda não anunciam verão
só os bem-te-vi saúdam nossa alegria
numa espécie de recepcionistas
com amor-perfeito torto pendurado nos bicos
me sirvo em copo
para ser bebido por você
é quase outubro
e já nem conto mais o tempo
só constato uma imensidão
que tem apenas um nome:
saudade
-------------
clara
clara escureceu um dia. seus olhos amanheceram sem brilho. seu andar perdeu força. sua vontade desmaiou, seu desejo desacreditou. seu sonho dormiu. Só se esquecia.
clara não acordou e nem dormiu. simplesmente se levantou.
clara escurecida, agora também descalça, de camisola caminhava na cidade das ruas sem saída.
sem nenhuma claridade, a andarilha deixava restos de cabelos que caíam em chumaços entre os paralelepípedos.
clara, escurecida, descalça e agora também careca, sem querer, num bocejo, mordeu os próprios dentes apodrecidos. não sangraram ( já estavam podres assim há tempos).
Sem seu sorriso, a moça parou quando suas unhas dos pés e das mãos cresceram tanto tanto tanto que a enraizaram.
clara, escurecida, descalça, careca, sem dentes, teve a pele toda toda toda enrugada. rapidamente, contorceu o corpo, abriu os braços, os olhos ocos, a boca num grito mudo, e se transformou em árvore.
numa das ruas sem saída, daquela cidade, existe uma árvore, que até hoje, nas noites de lua nova arde em ser mulher.
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João
João era filho de João que também era filho de João. João, o primeiro, era preto preto preto. Morreu ninguém sabe como, porque o segundo João, filho do primeiro, não se lembrou de contar para seu filho João. O terceiro João, filho do segundo, neto do primeiro, também não quis saber, porque sempre se confundia com as vozes que escutava.
O segundo João também escutava vozes, também era preto e gostava de cantar. Mas um rio cheio enxurrou sua vida e levou a vontade de cantar. Morreu mudo, e oco, antes de ver o filho João, o terceiro, ser pai... Morreu sem dizer um dos segredos que as vozes cantavam pra ele, morreu sem cantar para o neto.
O terceiro João não morreu, não é tão preto, e não gosta de cantar. Calou as vozes que escutava, calou o canto que o fazia dançar, calou o rio que levou a voz do pai.
O terceiro João teve um filho homem que não é João e nem é preto; mas escuta as vozes e
o silêncio do pai, guarda o mistério do bisavô, e admira o rio que revela o canto do avô.
O terceiro João teve filhas, que não são Joanas e nem Marias, e uma delas tem um filho João, que um dia vai cantar o mistério do bisavô, abrir os segredos do tataravô, colocar voz no silêncio do avô e a fazer daquele que não-é-João, ser um pouco João também.
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
anunciação
a vida sempre nos dá sinais de um novo tempo.
principalmente se:
uma lua de agosto anuncia um novo céu sobre o horizonte.
duas estrelas cadentes caem ao mesmo tempo.
uma tempestade de garças faz enchente nos rios do cerrado.
um canto ao pé do ouvido faz dançar os cabelos íntimos.
uma brisa percorre buracos úmidos.
um silêncio conversa entre quatro olhos.
uma manhã é despertada por uma lágrima de sorriso de olho.
uma rua é atravessada por epifanias minúsculas.
uma coincidência não se repete.
um par de asas decide trocar a rota migratória.
uma bicicleta anda sozinha a procura de seu dono.
um carinho no peito escreve: te amo.
principalmente se:
uma lua de agosto anuncia um novo céu sobre o horizonte.
duas estrelas cadentes caem ao mesmo tempo.
uma tempestade de garças faz enchente nos rios do cerrado.
um canto ao pé do ouvido faz dançar os cabelos íntimos.
uma brisa percorre buracos úmidos.
um silêncio conversa entre quatro olhos.
uma manhã é despertada por uma lágrima de sorriso de olho.
uma rua é atravessada por epifanias minúsculas.
uma coincidência não se repete.
um par de asas decide trocar a rota migratória.
uma bicicleta anda sozinha a procura de seu dono.
um carinho no peito escreve: te amo.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
a boneca
Eu tinha uma boneca de 80 anos. Ela foi brinquedo da minha avó, da minha mãe e da minha irmã. A boneca só foi minha quando morreu. Minha irmã a tinha enterrado no meio da lama do cantinho do jardim da minha mãe com as plantas da minha avó. Eu a desenterrei. Limpei. Ela estava só com um olho. Coloquei no lugar do outro um papel pintado. Barbantinho no lugar do cabelo. Coloquei um par de óculos para boneca me ver bem. Ela me vê só com um olho. No outro ela me pinta na cabeça dela.
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